Na foto, Isabelle quando ainda se vestia de menino[/caption] São duas coisas completamente diferentes porque Isabelle é uma criança transgênero. Na Austrália, assumir a homossexualidade é uma decisão estritamente pessoal, independentemente da idade. Mas crianças e adolescentes transgênero precisam de sentença judicial para garantir o tratamento, que é fundamental para evitar o desenvolvimento de um corpo com o qual não se identificam. No caso de Isabelle, a medicação inclui hormônios para bloquear a mudança no tom da voz e o crescimento de pelos. Segundo a médica, o diagnóstico é complicado antes da puberdade porque o gênero pode ser "fluido". Conforme Michelle Telfer, as evidências mostram que, de todas as crianças que apresentam comportamento em desacordo com o sexo, apenas 25% vão se identificar como transgênero na adolescência. "Isabelle não está neste estágio, mas se ela ainda se identificar como mulher após a puberdade, saberemos que não é uma fase. São 99,5% de chances de que a identidade feminina vai persistir na vida adulta", informa a pediatra. Por enquanto, a menina australiana está recebendo a primeira fase da medicação, que tem efeitos reversíveis. "Eu não sabia que havia tratamento para a minha condição. Procurei na internet e achei muitos sites explicando o que a gente pode fazer quando se sente como menina. Dizia que tem uma cirurgia especial, que quero fazer quando completar 18 anos. Quando for maior, posso fazer a operação de mudança de sexo, que vira o pênis de fora para dentro, transformando-o em uma vagina. Assim, eu vou poder usar mais roupas de meninas", antecipa com sua simplicidade infantil. Além das questões sociais, Isabelle tem que enfrentar a barreira judicial para transformar seu sonho em realidade. Aos 16 anos, ela vai precisar ir aos tribunais para provar que é mentalmente capaz de tomar a decisão que vai mudar o resto de sua vida. Para receber a segunda fase do tratamento, que é irreversível, precisa da aprovação de um juiz. Famílias de crianças transgênero e médicos se opõem à legislação porque o custo do processo é alto, o que poderia impedir meninos e meninas de receberem tratamento no tempo apropriado. ndependentemente disso, os pais de Isabelle vão fazer o que for necessário para assegurar o futuro da menina. Na Austrália, 30% dos jovens transgênero que não recebem tratamento tentam suicídio e 50% optam por autoflagelação. "Quando vi as estatísticas, pensei: 'tenho uma criança feliz. Isso não vai acontecer, porque vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para que ela tenha felicidade e uma vida longa'", diz Langley. Certo dia, Isabelle chegou em casa aos prantos. A menina chorava e dizia que não existia futuro para uma pessoa como ela. "Naquele momento, acabou minha confusão e entendi que nosso trabalho, como pais, é ajudá-la a criar um futuro com o qual possa viver", afirma a mãe. "Se eu não tivesse pais me apoiando, provavelmente já teria fugido ou me matado", confessa a criança. Apesar do bullying na escola, a menina assumiu sua identidade: usa roupas femininas, deixou o cabelo crescer e escreveu uma carta para os 200 colegas do colégio. "Olá a todos. Sou uma criança transgênero, o que significa que tenho uma mente de menina dentro de um corpo de garoto. (...) Isso tem ficado mais e mais difícil para mim nos últimos cinco anos", dizia o texto que comoveu funcionários e pais de alunos. "Uma das mães nos escreveu para contar que chorava cada vez que lia o texto. Ela teve uma conversa com o filho e disse para ele ser corajoso e ficar ao lado de Isabelle se as coisas complicassem", afirma o diretor da escola, David Pelosi. Os estudantes começaram a aceitar Isabelle como menina, e as piadas maldosas cessaram. A carta causou um impacto profundo na pequena cidade a nordeste de Melbourne. "Estamos recebendo apoio de gente que não conhecemos. Fomos parados no supermercado por pessoas que leram a carta e disseram que poderíamos contar com eles", comove-se o pai. Com sua coragem, Isabelle constroi um futuro melhor para ela e outras crianças na mesma condição. "Se você não for você mesmo, vai se sentir triste e miserável para o resto da vida", conclui.
(Fotos: Reprodução)