O trem descarrilado, a gasolina que vazava do vagão. O Sr. Pedro, que se escondera em casa para não se abrigar no ginásio junto aos vizinhos, assistia à novela. Em uma casa próxima, Dona Leninha, encharcada de gasolina depois de passar o dia todo carregando vários litros do combustível, resolve fazer um café.
Às 20h20, acontece a primeira explosão. Jacynival Pena, 78 anos, lembra-se de todos os detalhes. Nascido em Pojuca, ele foi vereador da cidade por 20 anos, e na época era líder de governo. "De minha casa eu vi o movimento e procurei saber", disse.
Ele conta que participou de todos os momentos da tragédia, que no dia 31 de agosto completou 33 anos. Segundo Seu Niva, como é conhecido na cidade, o trem descarrilou no início da manhã, às 7h, e diversas pessoas foram se aglomerando em torno dos três vagões que levavam mais de 120 mil litros de combustível. "O ferroviário, para esvaziar o tanque grande, começou a dar gasolina", contou. "Passou o dia todo, não veio ninguém providenciar nada. Era para ter isolado logo, chamado polícia", acrescentou.
Naquela noite do ano de 1983, centenas de pessoas ficaram feridas e outras dezenas morreram queimadas. "Pegamos os corpos e botamos tudo ali em frente ao cemitério", conta Seu Niva, enquanto relembra as dificuldades para reconhecer os corpos carbonizados. "Teve um que ninguém reconhecia. Quando pegou a carteira no bolso, encontrou a identidade dele, que não queimou, e o meu número de vereador", recorda.
A cena dos corpos estendidos em frente ao cemitério, localizado a poucos metros da linha de trem, na Travessa Juracy Magalhães, foi vista nacionalmente. Emissoras de televisão, jornais e revistas fizeram a cobertura da tragédia.
Na época, eles não sabiam o que teria causado a primeira explosão. Mas Seu Niva afirma que o motivo teria sido o café da Dona Leninha. A reportagem da revista Veja, por sua vez, apresenta diversos fatores que influenciaram na tragédia. A negligência do então superintendente da Rede Ferroviária Federal na Bahia, Walter Geb Valverde, e do então Ministro dos Transportes, Cloraldino Severo, além do número reduzido de seguranças presentes no local para afastar os curiosos.
Segundo a publicação, apenas 15 homens atuaram na operação, entre eles a Polícia Militar de Pojuca, guardas ferroviários e duas brigadas de incêndio da Petrobras. Trinta três anos depois, ninguém foi responsabilizado pelo ocorrido.
Em 31 de agosto de 1983 foi registrada a maior tragédia ferroviária do Brasil.