Muitos murros na região da nuca, chutes nas pernas e no tórax e muita dor, física e emocional. São essas as marcas do pesadelo vivido por um estudante de 15 anos, agredido no ônibus escolar por outros sete adolescentes durante um ataque motivado por homofobia na última sexta-feira (25). De prenome André, o jovem retornava de mais um dia de aula no Colégio Estadual José Freitas Mascarenhas, em Camaçari, cidade onde mora, quando sentiu os costumeiros xingamentos e palavras depreciativas se transformarem em agressão física e ameaça de morte.
Durante as agressões, uma colega, que estava próxima a André, também foi atingida por um soco na região dos olhos.
Ao Correio, a mãe do jovem, Mara Santana, conta que, passado esses primeiros dias, ele está bastante abalado psicologicamente e continua sentido dores no corpo. André foi levado mais de uma vez à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) local, tendo sido medicado para alívio das dores. Mara reclama o fato de o filho não ter sido submetido a nenhum exame de avaliação de danos mais severos.
Também abalada, ela diz que no dia das agressões o filho foi acolhido pela mãe da colega também atingida. “Ela colocou meu filho dentro de casa para proteger, mas um deles [dos agressores] continuou ameaçando, disse ‘pode segurar ele aí, mas eu vou matar ele’”.
“Meu filho está aqui com o psicológico abalado. Tomou muitos murros na região da nuca, chutes nas pernas, no tórax. Está aqui sentindo dores. Já levei para o hospital, duas vezes na UPA, mas só passa paliativo. Teria que fazer um exame mais preciso para ver se atingiu alguma coisa”.
Escalada de violência
Mara relata que até a última sexta-feira, André nunca havia contato em casa o que vivia no ambiente estudantil, principalmente no ônibus, mas que as agressões física o obrigaram a romper o silêncio. “Eu não contava porque tinha medo. Mas depois me falou que já tinha acontecido outras vezes situações de bullying, xingamentos, mas porrada era a primeira”. André é aluno do 1° ano do curso profissionalizante de Segurança do Trabalho.
“Ele está com o psicológico abalado, chorando toda hora, dizendo que não aguenta. Ele fica olhando o vídeo e dizendo ‘que covardia foi essa e eu não pude fazer nada’. Foram sete em cima dele, realmente não podia fazer nada. Ele é um menino que já tem os problemas dele. Ele é paciente do Caps. Segundo o psiquiatra ele é hiperativo”.
Apesar do diagnóstico inicial, o jovem está com as consultas regulares interrompidas. Segundo Mara, ela deixou de leva-lo há cerca de um ano ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) por conta dos custos de deslocamento. André também interrompeu o uso de medicação já prescrita.
A Secretaria Estadual de Educação confirmou a ocorrência das agressões. De acordo com a pasta, transporte escolar é realizado pelo município em regime de colaboração com o Estado, fazendo o atendimento de estudantes das redes municipal e estadual.
Acrescenta que a gestão escolar identificou um dos agressões como estudante do colégio. A família da vítima e o Conselho Tutelar também foram acionados, diz a pasta em nota ao correio.
“A SEC já designou um psicólogo para toda a assistência necessária ao estudante e à família. Ressalta-se que as ações pedagógicas orientadas pela SEC contemplam a Educação para as relações de gênero e sexualidade, inclusive na perspectiva de combate a qualquer forma de preconceito e intolerância. A SEC destaca, ainda, que já dialogou com a Secretaria Municipal de Educação de Camaçari para acompanhamento do caso.”
A Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia (SJDHDS) também publicou em sua página oficial uma nota de repúdio. Destacam que “a violência registrada no vídeo é sintoma do ódio que tem crescido no Brasil nos últimos anos e, mais gravemente, tem tirado vidas de jovens e adultos LGBTQIA+ em todo o país”.
Na publicação, a pasta informa que por meio do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT da Bahia (CPDD-LGBT), a SJDHDS colocou a equipe jurídica e psicossocial à disposição do estudante e sua família para acompanhar e orientar em relação ao caso e às providências cabíveis.
Na manhã desta quarta-feira (2), a mãe da vítima, acompanhada pela direção e coordenação da unidade escolar prestarão queixa na delegacia.
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