“A Justiça é cega, mas não é tola”. Foi com frases fortes como essa que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pronunciou nessa sexta (30) o último voto no processo que decretou, por cinco votos a dois, a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por oito anos. Além de Moraes, votaram pela condenação Cármen Lúcia, Floriano de Azevedo Marques, André Ramos Tavares e Benedito Gonçalves.
Os cinco ministros concordaram que Bolsonaro cometeu abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação durante reunião com embaixadores no Palácio do Alvorada em 18 de julho de 2022. Naquela oportunidade, para representantes de países estrangeiros, Bolsonaro atacou, sem provas, o sistema de voto eletrônico brasileiro. Divergiram da maioria os ministros Kassio Nunes Marques e Raul Araújo.
Após o resultado do julgamento, Bolsonaro disse que a “democracia tomou uma punhalada pelas costas” e que o Brasil “está no caminho para a ditadura” (veja ao lado).
Os sete ministros absolveram o candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, general Walter Braga Neto, que manteve intacto os seus direitos políticos. Ele é apontado como possível candidato do PL a prefeito do Rio de Janeiro no ano que vem. A Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) contra a chapa do PL foi protocolada pelo PDT.
Minuta
O TSE reservou três sessões para o julgamento, e abriu uma data extra. A primeira sessão foi no último dia 22 (uma quinta. coincidentemente, 22 é o número de urna do PL), quando o relator do processo, Benedito Gonçalves, leu seu relatório e abriu terreno para a maior polêmica do processo, a inclusão da minuta de golpe encontrada na residência de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro.
A inclusão documento foi defendida para mostrar que os ataques às urnas eletrônicas eram sistemáticos e serviam de argumento eleitoral, acirrando os ânimos de eleitores contra o TSE e o STF, o que culminou nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro.
Logo em seguida, o advogado do PDT, Walber Agra, destacou que a ação, de fato, não tinha como foco apenas uma reunião, “com evidente desvio de finalidade, de um presidente da República com embaixadores estrangeiros”. “Trata-se de uma Aije contra ataques sistemáticos ao sistema eleitoral, em defesa das instituições e da democracia”, afirmou.
Tarcisio Vieira de Carvalho Neto, advogado do PL, rejeitou a inclusão da minuta e garantiu que na reunião não houve ataque à democracia, apenas o uso do direito à liberdade de expressão em uma “exposição de pontos de dúvidas à comunidade internacional, em evento público, no afã de aprimorar o processo de fiscalização e transparência do processo eleitoral”.
A primeira sessão foi encerrada pelo posicionamento de do Ministério Público Eleitoral, representado pelo vice-procurador eleitoral Paulo Gonet. Ele defendeu a condenação do ex-presidente por transformar a reunião com embaixadores em “ato eleitoreiro” para proferir discurso de “desconfiança e descrédito” sobre as eleições de 2022. “O evento foi deformado em instrumento de manobra eleitoreira, traduzindo o desvio de finalidade (...) A reunião foi arregimentada para que a comunidade internacional e os cidadãos brasileiros, por meio da divulgação pela televisão e internet, fossem expostos a alegações inverídicas para afetar a confiança no sistema de votação”, disse.
Votos
A terça seguinte (27), marcou o início dos votos. O primeiro e único a votar foi o relator. A sessão foi retomada na quinta (29), quando a divergência foi aberta pelo ministro Raul Araújo, que seguiu a linha apresentada pela defesa. Depois votaram Floriano de Azevedo Marques e André Ramos Tavares. Uma sessão extra foi convocada para o meio dia de sexta. Nas redes sociais, internautas já antecipavam o resultado dizendo que Carmen Lúcia e Alexandre de Moraes iriam “almoçar” Bolsonaro. O voto de Carmen foi curto e seco. Ela seguiu o relator e afirmou que a Constituição brasileira estabelece que a normalidade e a legitimidade das eleições devem ser protegidas em relação ao abuso de cargo e função pública, além dos meios de comunicação.
Em seguida, Nunes Marques, embora tenha defendido a Justiça Eleitoral, acompanhou Araújo na divergência. Ele concluiu que a atuação do ex-presidente não teve como objetivo obter vantagens no pleito, tampouco fazer parte de uma tentativa concreta de desacreditar o resultado das eleições. "Não identifico gravidade necessária para condenar", declarou. Apesar disso, o ministro pontuou que "não há dúvidas que a prática discursiva" de Bolsonaro, durante o encontro com embaixadores, se orientou para "difundir suspeitas graves e infundadas acerca da atuação do Tribunal Superior Eleitoral e sistema de votação". Para ele, a reunião mostrou "nítida" finalidade eleitoral, tanto no discurso do então presidente quanto no perfil do evento.
Alexandre de Moraes avaliou que a reunião com os embaixadores teve "claro sentido de destruir credibilidade de sistema de votação" e influenciar o eleitor de que Bolsonaro estaria sendo vítima de uma "conspiração do Poder Judiciário para fraudar as eleições presidenciais em 2022".
O ministro também rebateu as falas do ex-presidente aos embaixadores, classificando-as de “mentira”. E destacou o repúdio da Corte ao "degradante populismo renascido a partir das chamas dos discursos de ódio, antidemocráticos e que propagam desinformação".
Ex-presidente compara decisão à facada de 2018
Depois de resistir por semanas a reconhecer sua derrota nas eleições do ano passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro assumiu rapidamente sua inelegibilidade, declarada nesta sexta (30) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). "Estou inelegível a partir de agora", reconheceu, aos gritos, inconformado com o resultado. No entanto, ele manteve os ataques à Corte e o discurso de que é perseguido. Ele falou à imprensa em Belo Horizonte e afirmou que o Brasil está em "caminho bastante avançado" para se tornar uma ditadura, ainda que a decisão judicial tenha sido tomada de forma colegiada. "Foi uma condenação sem crime de corrupção, mas tudo bem". E que o TSE trabalhou contra ele inclusive durante o processo eleitoral. "Foi um massacre em cima de mim por alguns setores da sociedade. O TSE trabalhou contra minhas propostas, fui proibido de mostrar imagens do Lula com gorro do CPX, do Complexo do Alemão, proibido de fazer live em casa, de mostrar imagens do 7 de setembro", disse.
Ele comparou a sentença com o atentado que sofreu durante a campanha de 2018. "Há pouco tempo tentaram me matar em Juiz de Fora, levei uma facada na barriga. Hoje levei uma facada nas costas com a inelegibilidade". Falou ainda que o Brasil não reconheceu seu "esforço" em "jogar dentro das quatro linhas da Constituição" e que quem contribuiu com sua inelegibilidade deveria, "por coerência", confraternizar com os ditadores Nicolás Maduro, da Venezuela, e Daniel Ortega, da Nicarágua, aliados de Lula. "Me tiraram de combate com o Ortega convidado para o Foro de São Paulo", reclamou.
E ironizou: "Acho que o Brasil fica de luto, alguém vai soltar fogos, obviamente. [Lula] vai entrar em campo para ganhar por quase W.O. em 2026, mas isso é democracia".
‘Estou às suas ordens, meu Capitão’, escreve Michelle
De olho nos pleitos de 2024 e 2026, aliados de Jair Bolsonaro usaram as redes sociais para criticar a decisão do TSE, defender que o ex-presidente continua sendo uma força eleitoral no país e evitar o isolamento político do grupo. Além de garantir que a inelegibilidade pode ser revertida, já que o PL vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Os nomes do bolsonarismo cotados para disputar a presidência são os dos governadores Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e, com menor intensidade, Romeu Zema, de Minas Gerais, além da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Logo após a decisão do TSE, Michelle escreveu nas redes sociais: "Estou às suas ordens, meu Capitão". Ela disse ainda que segue "confiando, acreditando e ao seu lado". "Nosso sonho segue mais vivo do que nunca". A mensagem ainda cita uma passagem bíblica.
Bolsonaro já afirmou que se Michelle quiser, ela pode ser candidata, mas que não acredita que ela tenha experiência para cargo. Quando questionado sobre um possível apoio a Tarcísio, disse que eles "têm de conversar". Em entrevista À Folha de S. Paulo, garantiu, ainda, ter uma "bala de prata" para o pleito de 2026, mas não revelou do que se trata.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que a inelegibilidade é uma "injustiça" contra "o maior líder popular desde a redemocratização". E que, no partido, o trabalho será "dobrado" para "mostrar nossa lealdade ao presidente Bolsonaro".
Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que a liderança do ex-presidente como representante da direita é "inquestionável" e que vai perdurar, apesar da inelegibilidade.
Esquerda comemora; Ciro fala em resgate do ‘direito de cobrar’
As redes sociais também foram usadas por políticos de esquerda para repercutir a decisão do TSE que tornou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) inelegível por oito anos. Nas postagens, os representantes da antiga oposição ao ex-presidente destacaram que o parecer do TSE significou a "defesa da democracia" e provocaram apoiadores com frases de efeito utilizados por Bolsonaro na internet, como ‘acabou porra" ou "tchau, querido".
A presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), afirmou que a condenação de Bolsonaro teria tido uma "enorme força didática" para punir atos praticados pela extrema-direita. Hoffmann também ironizou o jargão "Grande dia!", frequentemente utilizado por Bolsonaro com seus apoiadores nas redes sociais. "A justiça foi feita! O 'belzebu' desrespeitou e atentou contra a democracia e a vida dos brasileiros, e está enfrentando as consequências", escreveu Carlos Lupi, presidente do PDT e atual ministro da Previdência.
Já Ciro Gomes, ex-candidato da legenda, ressaltou que a intenção do PDT foi a de "defender a democracia" e de punir o "abuso de poder político". Ciro, que tem se mostrado como uma voz opositora ao governo de Lula, citou que os brasileiros agora podem cobrar mudanças do governo sem um sentimento de medo de que com isso ajudar no retorno de Bolsonaro ao poder.
"O que espero é que, de hoje em diante, tenhamos os brasileiros direito de cobrar de nosso governo mudanças profundas na vida política e econômica do Brasil, sem o oportunismo de a tudo termos que engolir porque senão… ‘Bolsonaro voltaria’", afirmou em sua postagem.
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