Me dia uma coisa: como você se sente quando algum sentimento ou situação desafiadora, que te incomoda ou que você supera com muito esforço é interpretado como algo comum, corriqueiro ou o velho clichê “é assim mesmo”?
Provavelmente desperte em voce uma vontade de expressar a relevância da sua vida e que não foi “tão simples e fácil assim”, outras pessoas podem até questionar e tem aqueles que não aceitam este olhar para o outro e suas questões sem respeito.Concordam?
Sendo assim, vou trazer aqui algumas frases que dizemos e ouvimos com frequencia:
“Ah a vida é assim para as mulheres, mas nada que não supere”.
“Nossa! Que mulher guerreira, mãe, trabalhadora, sustenta a casa e ainda cuida da família é isso aí”.
“Não sei como ela consegue dar conta”.
“Ela sempre dá um jeito”.
“Pode dar tudo errado, mas ela é forte e sempre dá a volta por cima”.
“Admiro gente assim que corre atrás, não desiste, trabalha duro”.
“Ela cai, levanta, luta pelos espaços dela sempre com sorriso no rosto”.
“Um exemplo admirável de luta e superação”
Poderia ficar aqui escrevendo muitas mais. Quase todas eu já ouvi e até já disse para mulheres pretas, a intenção de admirar e elogiar pessoas que superam dores, desafios com esforço e superação sem perder sua essência, seu amor pela vida, seu jeito de viver. Mas, será que enaltecer suas dores, ou apenas normalizá-las é o bastante?
Julho é o mês em que alguns movimentos de debate, valorizam e conscientizam a sociedade sobre as Mulheres pretas, latinas-caribenhas. O que eu acho incrível e recomendo a todos ler, prestigiar redes sociais, eventos e as informações que circulam nesses dias. É uma forma de acessar um pouco a dimensão que vive uma mulher preta, as diferenças vivenciadas diariamente apenas pela sua cor. Ao mesmo tempo celebrar as conquistas de espaços, como respeitar ou apoiar causas que almejam trazer mais equidade aos corpos de mulheres que sofrem violências de diversas formas, que lutam por respeito e oportunidades, que tem na sua autenticidade e resiliência uma bandeira de resistência.
As frases comuns que ouvimos não precisam ser banidas, não viu?! Mas será que apenas repeti-las para uma mulher é um gesto de apoio, elogio e admiração? Você já parou para se questionar quais dores, esforços e solidão tem por tras de cada mulher que é admirada pela sua luta, força e coragem?
O que eu posso dizer é que esse caminho solitário de desbravar é exaustivo. As dificuldades, a necessidade de estar sempre um passo à frente, ter argumentos que não sejam colocados na caixinha “se fazer de vítima” e que também não sejam tão agressivos “para não perder a razão”. Como mulher preta, mãe e que tem sonhos a realizar posso afirmar que é dolorosa a jornada de reafirmação constante. E esse olhar de guerreira, lutadora, que tudo supera nos coloca em um lugar heróico, mas é real e tem sequelas graves. Não sou apenas “aquela que luta” tenho sentimentos, sonhos, e todas as questões humanas e comuns, quero mais que respeito eu quero fazer parte da sociedade, não queremos caminhar na solidão de guerras diárias, quero poder caminhar lado a lado com todes para apoiar e ser apoiada. Ainda é um sonho distante, mas se faz necessário não estereotipar a Mulher preta como “guerreira “ e você que leu até aqui pode fazer a diferença na vida de uma mulher hoje?!
Não dá para mudar uma realidade complexa, injusta e repleta de questões estruturais, mas é possível cada um fazer a diferença no seu dia a dia, acredite que pequenas ações promovem grandes revoluções. Apenas comece!
Até nosso próximo encontro!