O anúncio de novas tarifas comerciais pelo ex-presidente e atual candidato Donald Trump está provocando uma corrida entre empresários brasileiros para antecipar o envio de mercadorias aos Estados Unidos. Com a taxação de até 50% prevista para entrar em vigor no dia 1º de agosto, indústrias intensificaram a produção e enfrentam aumento de custos para evitar prejuízos ainda maiores.
Em São Paulo, uma fábrica de máquinas para produção de salgados reduziu de um mês para cinco dias o prazo de entrega de equipamentos já encomendados por clientes americanos. Para isso, a empresa organizou turnos extras, incluindo finais de semana, e mobilizou fornecedores para acelerar o envio de peças. “Vamos trabalhar direto, inclusive nos dois próximos fins de semana, para cumprir os prazos e evitar a nova tarifa”, explicou o diretor Gilberto Poleto.
A estratégia emergencial já impacta o orçamento da empresa. Custos com horas extras, antecipação de compras de insumos e frete aéreo – que está mais caro devido ao aumento da demanda – devem elevar em 10% o valor final de produção. Ainda assim, segundo Poleto, a operação compensa diante da tarifa de 50% que passará a valer no mês que vem. A empresa já estuda alternativas, como a montagem dos equipamentos diretamente em solo americano.
Situação semelhante é enfrentada em Minas Gerais, onde uma indústria de fornos industriais usados por redes de fast food tenta antecipar embarques que representam mais de 10% da produção anual. “Estamos lidando com o desafio de como manter a competitividade no mercado dos Estados Unidos com essa nova realidade”, afirmou o diretor-geral Luiz Eduardo Rezende.
Entretanto, nem todos os setores têm condições de acelerar as entregas. No caso da indústria pesqueira, que depende do transporte marítimo, os impactos já são severos. Nos estados da Bahia, Pernambuco e Ceará, 58 contêineres com peixes e frutos do mar começaram a retornar para as empresas após os compradores americanos suspenderem as encomendas. Os produtos não chegariam aos EUA antes do prazo da nova taxação.
Segundo Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados, o mercado norte-americano representa 70% das exportações do setor. Sem alternativas imediatas para escoar essa produção, empresas devem interromper temporariamente as atividades e demitir funcionários. “Vamos tentar redirecionar esse estoque para mercados secundários, mas o prejuízo será inevitável”, alertou.
A situação é ainda mais crítica para pequenos exportadores. Joseph Couri, presidente da Associação Nacional da Micro e Pequena Indústria, afirmou que muitos negócios não têm fôlego financeiro para arcar com os custos extras. “Eles não têm capital de giro, margem ou recursos para mudar, por exemplo, de transporte marítimo para aéreo. Esses empresários serão os mais prejudicados”, observou.
O tarifaço anunciado por Trump, se implementado, pode redesenhar a logística e a viabilidade das exportações brasileiras aos Estados Unidos, com impactos que vão desde o aumento do custo produtivo até o fechamento de postos de trabalho.
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