Manter viva a memória e o legado de Mãe Bernadete Pacífico, além de cobrar justiça pelo assassinato da liderança quilombola, são objetivos de familiares, amigos e entidades ligadas à defesa dos direitos humanos três anos após o crime que chocou a Bahia. A ialorixá e ativista foi morta com 25 tiros, a maioria no rosto, enquanto estava sentada no sofá de casa, na comunidade de Pitanga dos Palmares, em Simões Filho.
Para lembrar a trajetória da líder quilombola, uma missa será realizada nesta segunda-feira (17), às 9h, no Santuário do Senhor do Bonfim, em Salvador. A cerimônia reúne familiares, amigos e apoiadores da luta de Mãe Bernadete pela defesa das comunidades tradicionais.
“Acredito que, apesar dos desafios cotidianos, que existem em muitas comunidades quilombolas, a gente tem feito um bom trabalho ao preservar o legado dela”, afirma o neto, Wellington Pacífico, de 25 anos, em entrevista à Agência Brasil.
Wellington estava na residência da família quando a avó foi assassinada. A morte de Mãe Bernadete representou mais uma perda dolorosa para o jovem, que também perdeu o pai, Flávio Pacífico, conhecido como Binho do Quilombo, assassinado em 2017. “São feridas que não foram reparadas. Para a nossa comunidade, é uma dor perder minha avó, perder meu pai e ainda por cima viver, conviver com a impunidade de não haver justiça.”
O neto da ativista decidiu cursar Direito para atuar na defesa da justiça e das comunidades quilombolas. Ele integra o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) e afirma que as experiências vividas pela família mudaram sua visão sobre a área. “Tive minha família destruída, atravessada por tragédias, tendo que se reconstruir a cada dia. Essas vivências me fizeram ter outro olhar para o direito”, afirmou.
Dois acusados pela morte de Mãe Bernadete já foram julgados. Arielson da Conceição dos Santos, apontado como executor do crime, foi condenado a mais de 40 anos de prisão, enquanto Marílio dos Santos, acusado de envolvimento no planejamento, recebeu pena de 29 anos e 9 meses. Outros três suspeitos aguardam julgamento, previsto pela família para ocorrer em outubro. “A gente espera que a justiça seja feita. Toda vez que falarmos da Mãe Bernadete, a gente tem que falar do Binho do Quilombo. Suspeitos foram presos e depois soltos. Eu diria até que há risco de vitimar outras lideranças.”
A família também trabalha para manter os projetos idealizados por Mãe Bernadete, como festivais culturais, cursos de artesanato e ações comunitárias. O filho dela, Jurandir Pacífico, busca parcerias para fortalecer as iniciativas. "Estamos buscando políticas públicas para as comunidades quilombolas”.
A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) também reforçou a necessidade de proteção às lideranças tradicionais. A entidade cobra medidas efetivas do Estado para garantir a segurança de defensores dos direitos humanos. “A gente espera mais do Estado Brasileiro na proteção dos defensores e defensoras de direitos humanos, das lideranças quilombolas que fazem a luta pela terra, que fazem a luta para salvaguardar os territórios.”
A historiadora baiana Valdecir Nascimento, fundadora do Odara - Instituto da Mulher Negra, destacou que mulheres negras defensoras de direitos humanos enfrentam diferentes formas de violência. “As desigualdades no Brasil têm cor e gênero. Esse conjunto de violências nos deixa acuada na luta por garantia de direitos.”
Segundo levantamento da Conaq, o assassinato de Mãe Bernadete não foi um caso isolado. Pelo menos 22 mulheres foram mortas entre 2016 e 2024 e outras 33 sofreram ameaças entre 2021 e 2023. “Precisamos estar seguros no nosso território”, diz Selma Dealdina. A entidade apresentou um plano emergencial de proteção para mulheres quilombolas, com o objetivo de ampliar a segurança das lideranças e garantir a continuidade da luta pelos territórios.
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