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Política em Foco Bastidores

Áudio atribuído a dirigente sindical detalha mobilização para adesivar ônibus em Salvador

Gravação aponta orientação para colar adesivos do PT apenas nos coletivos que sairiam das garagens no segundo turno. Sindicato repudia tentativa de responsabilizar a entidade pela retenção dos veículos; redução da frota também é investigada

30/10/2026 22h20 Atualizada há 60 minutos atrás
Por: Luana Velloso Fonte: Redação
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Áudios atribuídos ao presidente interino do Sindicato dos Rodoviários de Salvador, Fábio Primo, apontam uma suposta mobilização de integrantes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) para adesivar ônibus do transporte público com propaganda do PT durante o segundo turno das eleições, no último domingo (25). Nas gravações, divulgadas nas redes sociais, o interlocutor orienta a distribuição dos materiais e recomenda que os adesivos sejam colocados apenas nos veículos que efetivamente sairiam das garagens para circular.

Em um dos trechos, a voz atribuída a Primo afirma que a quantidade de adesivos era insuficiente para atender a toda a frota e orienta os participantes a consultar os operadores para identificar os ônibus que deixariam as garagens. "Não tem material suficiente para todos os carros, então, quando chegar, temos que pegar na mão do operador o número dos carros que vão sair, para a gente colar apenas nos carros que vão sair, até porque eles não colocam 100% da frota", diz a mensagem.

Em outro momento, o interlocutor convoca os envolvidos a assumir responsabilidades na ação e afirma que o momento seria "crucial". A gravação também menciona a necessidade de buscar e distribuir os adesivos entre os participantes. A voz que aparece nos áudios é atribuída a Fábio Primo, mas o conteúdo ainda está sujeito à apuração.

A divulgação das mensagens ocorre após a retenção de ônibus nas garagens durante o domingo de votação. Na ocasião, a presença de adesivos com propaganda eleitoral nos coletivos foi apontada como justificativa para impedir a saída de parte dos veículos, sob a alegação de possível irregularidade eleitoral. A redução da oferta do transporte público também passou a ser investigada, diante das dificuldades enfrentadas por eleitores para chegar aos locais de votação.

Procurado pela reportagem, Fábio Primo preferiu se manifestar por meio de nota do Sindicato dos Rodoviários. A entidade contestou a tentativa de atribuir ao sindicato e aos seus diretores a responsabilidade pela retenção dos ônibus sem a devida comprovação. No comunicado, classificou como "inadmissível" a divulgação de versões que, segundo a representação dos trabalhadores, distorcem os acontecimentos e desviam a atenção das circunstâncias que levaram à paralisação dos veículos.

O sindicato afirmou que não aceitará acusações que considera infundadas nem tentativas de deslegitimar sua atuação. Também defendeu que os fatos sejam apurados com seriedade, responsabilidade e transparência, sem manipulações ou atribuições indevidas de culpa. A entidade acrescentou que sua atuação deve ser compreendida a partir do compromisso com a defesa dos trabalhadores e com o respeito aos direitos democráticos.

A retenção dos coletivos e a redução da frota já são alvo de apurações em diferentes instâncias. A Procuradoria-Geral do Estado da Bahia (PGE-BA) apresentou, na quarta-feira (28), uma notícia-crime ao Ministério Público Federal (MPF), solicitando a investigação de possíveis irregularidades na oferta do transporte público durante o segundo turno. O áudio foi acrescentado aos elementos relacionados ao caso. Até a publicação das informações, não havia conclusão sobre as responsabilidades.

Levantamento do Procon-BA identificou 944 ônibus parados em garagens de concessionárias durante a fiscalização realizada no domingo (25). O órgão também apontou ausência de equipes operacionais e de apoio de plantão nas empresas. Segundo o relatório, a fiscalização não constatou adesivação generalizada nos veículos, uma das justificativas apresentadas para a retenção da frota. Os documentos foram encaminhados às autoridades competentes para apuração.

Na terça-feira (27), vereadores da oposição solicitaram à Câmara Municipal de Salvador a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar a redução do serviço. O pedido foi apresentado ao presidente da Casa, Carlos Muniz (PSDB), em reunião a portas fechadas. Na ocasião, a oposição informou ter reunido dez das 14 assinaturas necessárias para a instalação da comissão. A Câmara possui 43 vereadores. O objetivo declarado pelos parlamentares é apurar o episódio e identificar eventuais responsáveis.

Relatórios de inspeção realizados por juízes do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) também registraram ônibus estacionados em garagens de empresas durante o período de votação. Na sede do BRT, na Avenida Barros Reis, um supervisor confirmou que a quantidade de veículos em circulação era inferior à dos dias úteis e afirmou que a empresa seguia orientação da Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob). Situação semelhante foi constatada nas garagens da Integra Verde G2, no bairro de Santa Mônica, e da Ottrans G1, na Estrada Velha de Campinas de Pirajá. Nas duas unidades, operadores de tráfego também confirmaram a circulação de uma frota menor. Vídeos anexados ao processo mostram dezenas de ônibus parados nos pátios.

Em entrevista à TV Bahia na terça-feira (27), o secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, afirmou que a prefeitura adotou nos dois turnos o mesmo planejamento de transporte utilizado em eleições anteriores. Segundo ele, a frota municipal é composta por 1,7 mil ônibus, dos quais 850 circularam no primeiro e no segundo turno, o equivalente a 50% do total. O secretário argumentou que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não determinou a operação de 100% da frota em nenhuma cidade do país.

A Resolução nº 23.751 do TSE, de fevereiro de 2026, estabelece, no artigo 23, que o poder público deve assegurar transporte coletivo gratuito nos dias de votação, com frequência compatível com a dos dias úteis. A norma também prevê que a oferta não deve incluir propaganda partidária ou eleitoral. A redução do serviço habitualmente ofertado nesses dias pode configurar crimes eleitorais previstos no Código Eleitoral.

Além disso, uma publicação da própria Semob sobre a operação do segundo turno informava que seria utilizada "100% da frota utilizada em dias úteis, sem a redução habitual de veículos aos domingos". O Sindicato dos Rodoviários, por sua vez, informou que a frota costuma ser reduzida nos fins de semana para até 50%, em razão das folgas dos funcionários, e que a operação montada para o dia da votação seguia o planejamento de um domingo comum.

Pablo Souza afirmou que a diferença entre as operações dos dois turnos esteve relacionada à colocação de adesivos com propaganda eleitoral nos ônibus. A investigação sobre a retenção dos veículos e a redução da frota segue em andamento, sem definição sobre a responsabilidade de cada envolvido.

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