"As pessoas públicas, autoridades, profissionais de saúde têm que dar o exemplo para a população. Temos que manter a coerência Com esse tipo de atitude (do presidente), fica mais difícil a população aderir e acreditar que é algo que deve ser levado a sério", afirmou Nancy Bellei, professora de infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Segundo especialistas, não é só o contato direto que transmite o coronavírus. Gotículas de saliva de uma pessoa infectada também podem passar o vírus. Para o epidemiologista Eliseu Waldman, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, a conduta de Bolsonaro entrou em conflito com as recomendações das autoridades sanitárias. "O Ministério da Saúde fala uma coisa e o presidente, não com palavras, mas com atos, fala outra", disse ele.
No fim da tarde, o Ministério da Saúde voltou a orientar que sejam evitadas aglomerações e contatos próximos. "A recomendação vale para manifestações, shows, cultos e encontros, entre outras atividades", informou a pasta. O ministro Luiz Henrique Mandetta disse ao canal CNN Brasil que participar de aglomerações "é completamente equivocado"
De acordo com o infectologista Celso Granato, professor da Unifesp e diretor médico do Grupo Fleury, o correto seria Bolsonaro manter o isolamento por 14 dias desde o último contato que teve com um caso confirmado. "Pegar celular e outros objetos pode deixar uma 'impressão digital com o vírus'. É um risco em potencial."
Políticos
Além das críticas por desrespeito às diretrizes de combate a uma doença que se espalhou mundialmente, Bolsonaro também foi atacado por ter participado de manifestações que atacam o Parlamento. Enquanto o presidente cumprimentava simpatizantes em frente ao Palácio do Planalto, manifestantes gritavam "Fora Maia". Um deles chegou a pedir que o Bolsonaro fechasse o Congresso. Era possível ouvir também ouvir gritos contra o presidente do STF, Dias Toffoli.
O presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) classificou o comportamento do presidente como "inconsequente", um "confronto" à democracia.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que Bolsonaro deveria estar "coordenando um gabinete de crise para dar respostas e soluções para o País", em vez de ir ao protesto (mais informações na pág. A6).
No fim do dia, o presidente comentou o assunto em uma entrevista à CNN Brasil. Ele chamou de "extremismo" e "histeria" medidas adotadas diante da pandemia do coronavírus, que no Brasil já havia infectado 200 pessoas até o início da noite. "Porque não vai, no meu entender, conter a expansão desta forma muito rígida Devemos tomar providências porque pode, sim, transformar em uma questão bastante grave a questão do vírus no Brasil, mas sem histeria", opinou o presidente.
Diretor da Anvisa na manifestação
O diretor-presidente substituto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, acompanhou o presidente Jair Bolsonaro no ato de ontem em Brasília. Em alguns momentos da transmissão da participação de Bolsonaro na manifestação, Torres, que é médico e contra-almirante, aparece filmando os cumprimentos entre o presidente e os apoiadores.
A presença do diretor da Anvisa no protesto causou perplexidade em técnicos da área da Saúde do governo, segundo apurou o Estado Para eles, o episódio tira crédito da campanha de prevenção ao coronavírus que vem sendo feita e confunde a população.
A Anvisa não se manifestou sobre a ida de Bolsonaro ao ato. O órgão disse apenas que Torres aceitou um convite para conversa informal no Palácio do Planalto com o presidente. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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