O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu, nesta quinta-feira (5), que o Brasil precisa manter as contas públicas sob controle e oferecer segurança jurídica para atrair investimentos. Durante discurso na primeira reunião do Conselho Nacional para a Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, o chefe do Executivo afirmou que investidores precisam encontrar uma economia organizada, com condições de garantir retorno financeiro aos recursos aplicados.
“Se a gente quiser atrair capital, temos que ter seriedade. Ninguém vai colocar dinheiro aqui por causa dos belos cabelos do Lula e do [Geraldo] Alckmin”, declarou o presidente. Em seguida, afirmou que os investidores precisam perceber que os projetos desenvolvidos no país podem gerar benefícios e, ao mesmo tempo, oferecer retorno financeiro.
Lula também defendeu a responsabilidade jurídica e fiscal como condições para estabelecer parcerias e ampliar a participação de investidores no desenvolvimento econômico. “Para a gente atrair, a gente vai ter que ter uma economia arrumada. Ninguém vai querer vir fazer investimento numa economia totalmente desordenada. As pessoas querem saber se nós estamos falando sério”, afirmou.
A declaração representa uma sinalização em favor da organização das contas públicas em um momento de pressão sobre o governo para apresentar medidas de controle dos gastos. Ao longo do mandato e durante a campanha eleitoral, Lula fez críticas recorrentes às cobranças do mercado financeiro por ajustes fiscais e defendeu a conciliação entre o equilíbrio das contas públicas e a manutenção dos investimentos em políticas sociais.
O discurso ocorreu durante a primeira reunião do Conselho Nacional para a Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), que aprovou uma relação de 27 minerais considerados prioritários para o país. A lista foi dividida em três níveis de prioridade, conforme critérios como risco geopolítico, concentração da produção mundial, possibilidade de substituição e importância dos recursos para a soberania nacional e a industrialização. Entre os minerais classificados estão terras raras, grafita, lítio, níquel, potássio e nióbio.
Durante o encontro, Lula também defendeu a formação de parcerias com outros países para ampliar a exploração e o processamento desses recursos no Brasil. O presidente afirmou que o objetivo não deve ser apenas permitir a extração mineral, mas estimular a transformação industrial e agregar valor à produção nacional.
Antes da reunião do conselho, Lula havia convocado ministros, ex-integrantes do governo e economistas para discutir a situação das contas públicas e os rumos da política econômica. O encontro começou por volta das 12h, no Palácio da Alvorada, e durou aproximadamente quatro horas.
Participaram da reunião o vice-presidente Geraldo Alckmin; os ministros Dario Durigan, da Fazenda, Bruno Moretti, do Planejamento e Orçamento, Miriam Belchior, da Casa Civil, e Esther Dweck, da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos; além do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante. Também estiveram presentes os ex-ministros Fernando Haddad e Guido Mantega, o ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho e os economistas Eduardo Moreira e Laura Carvalho.
Após o encontro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que não foram discutidas medidas específicas, mas que houve convergência entre os participantes sobre o diagnóstico da economia e os caminhos para melhorar os resultados fiscais. Segundo ele, o governo pretende reforçar as regras fiscais existentes e manter os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral, incluindo os relacionados às políticas sociais.
Durigan também informou que pretende ouvir avaliações técnicas e organizar propostas para apresentar a Lula após o retorno do presidente de compromissos internacionais. O ministro afirmou que não existe uma solução única para os desafios econômicos e defendeu a melhoria gradual das contas públicas, sem abandonar os investimentos sociais.
A pressão sobre a política fiscal aumentou após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro, que confirmou a reeleição de Lula. Desde então, o mercado financeiro registrou oscilações expressivas. Na quinta-feira (5), o dólar encerrou o pregão cotado a R$ 5,487, enquanto o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, fechou aos 166.191 pontos, com queda de 0,81% no dia.
Outro fator de pressão foi a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, na quarta-feira (4), de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. A decisão interrompeu uma sequência de cinco reduções consecutivas. No comunicado, o colegiado afirmou que acompanha os efeitos da política fiscal doméstica sobre a política monetária e os ativos financeiros, além de destacar a necessidade de cautela diante das incertezas econômicas.
O Banco Central também apontou a aceleração recente da inflação e o aumento dos riscos para o cumprimento da meta como fatores considerados na decisão. A manutenção dos juros, portanto, ocorreu em um cenário de preocupação com as contas públicas, as expectativas de inflação e o comportamento da atividade econômica.
As declarações de Lula e a reunião com representantes da equipe econômica ocorrem, assim, em meio à cobrança por sinalizações mais claras sobre a condução das contas públicas. Embora o governo tenha reafirmado o compromisso com a responsabilidade fiscal, ainda não foram anunciadas medidas concretas para o controle dos gastos. A expectativa é que as propostas sejam apresentadas ao presidente após a conclusão das discussões técnicas e o retorno de sua viagem internacional.
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